Fones de ouvido e a saúde auditiva

Por Alexandre Algranti*

O silêncio é um luxo e o mundo moderno agride constantemente nossos ouvidos. Atividades simples como guiar o carro com o vidro fechado, procurar trabalhar nas áreas mais isoladas do escritório ou da casa, controlar o volume da televisão e inserir tubos de espuma macia nos ouvidos na hora do metrô, do vôo, do jogo, show ou da balada, ajudam a diminuir o impacto dessas agressões.

Já protetores auriculares industriais são essenciais para praticantes de instrumentos amplificados, além de entusiastas de música ao vivo, esportes automotivos e tiro esportivo. Sistemas de cancelamento ativo de ruído, por sua vez, criam um santuário sintético em aeronaves, trens e locais movimentados e reduzem muito o estresse de viajar a trabalho.

Física e fisiologia

O som pode ser descrito como a propagação de um distúrbio na pressão atmosférica, que ao nível do mar mede aproximadamente 100 K Pascal, unidade que homenageia Blaise Pascal (1623-1662), o Santo Padroeiro da Barometria.

Um ouvido humano saudável começa a detectar variações a partir de 20 µ Pascal, valor este definido como o zero em uma escala logarítmica de intensidade de pressão sonora expressa em decibéis (dB) SPL (“Sound Pressure Level”, nível de pressão sonora) .

Este mesmo ouvido, porém, começa a entrar em colapso quando a variação de pressão aumenta 1 milhão de vezes e atinge os 120 dB SPL do famigerado “limiar da dor”. Aquele “apito” ou “zumbido” no ouvido que sucede a um show ou noitada – denominado “tinitus”, na literatura médica – sinaliza que chegamos perigosamente perto deste limiar e que também já causamos um dano irreversível à audição.

Devido a sua proximidade física com os tímpanos, os fones de ouvido podem atingir picos de pressão sonora que, se não controlados, vão danificando gradativamente o sistema auditivo como um todo. Como não é fácil medir o nível de SPL gerado por um fone de ouvido fora do laboratório, a primeira e talvez a única dica para manter a sua saúde auditiva ao utilizar fones de ouvido é usar o velho e bom senso.

Por mais paradoxal que soe, deve-se poder ouvir alguns sons externos ao se utilizar fones de ouvido, tais como a campainha da casa ou do telefone, além obviamente do som do trânsito e demais atividades que ocorrem nas ruas. Então, deve-se aumentar o volume gradativamente a partir do zero até se obter um nível de conforto que não comprometa nem a sua audição nem a sua segurança física e a de terceiros.

Outro motivo para se limitar o volume está no reflexo do músculo estapédio, localizado no ouvido médio e que controla as vibrações do estribo, que começa a se tensionar a partir de 90dB SPL para proteger a audição, reflexo este que introduz distorções na sensação dos sons recebidos.

Um cuidado especial deve ser tomado com os fones do tipo in-ear, pois ao serem introduzidos no canal auditivo podem causar irritações ou mesmo infecções. Fones in-ear de boa qualidade vêm com ponteiras destacáveis que podem ser higienizadas com água e detergente leve, além de serem vendidas à parte. Já os fones com certificações de prova d’água, como a certificação IPX5, permitem lavar os fones com água corrente porém no sentido perpendicular ao eixo acústico dos mesmos.

Finalmente, visite o seu otorrinolaringologista regularmente e realize uma audiometria pelo menos uma vez a cada três anos. Este exame levanta a resposta de frequência do seu sistema auditivo e permite identificar as perdas nas diferentes faixas, alertando possíveis excessos e indicando o caminho de possíveis tratamentos.

Com arquivos de áudio codificados em LPCM, níveis moderados de SPL e fones higienizados, você tem tudo para usufruir da mais vital das artes por anos a fio.

Por último, e como com os demais prazeres da vida moderna, aprecie com moderação.

*Alexandre Algranti continua na busca do fone de ouvido perfeito. Porém, espera nunca encontrá-lo…

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