Como ter o som perfeito num ambiente de home theater

Graves sem controle? Isolamento acústico? Som abafado? Veja as dicas para resolver esses e outros problemas em sua sala. 

Por Luiz Fernando O. Cysne*Durante décadas a fio, testemunhei a maioria das revistas especializadas em “alta fidelidade”, daqui e do exterior, massacrando os ouvidos dos audiófilos com informações ambíguas e até mesmo incorretas sobre a acústica das salas de música. Infelizmente, cenário que ainda prevalece. Só que essa lenga-lenga migrou para a internet.

A consequência disso veio na forma perversa de muitas salas que, construídas com base nessas “orientações”, acabaram exibindo propriedades acústicas abomináveis. Foi sugerido aos consumidores que enchessem suas salas com cortinas, tapetes e estofados. E esses itens pouco ou nada absorvem de baixas frequências. Absorvem medianamente as médias frequências, e absorvem rigorosamente todas as altas frequências. Eis por que essa “técnica” de tratar acusticamente produz padrões sinistros de reverberação.

Quem não tem ouvidos treinados acaba se acostumando com o som medonho resultante. Os menos avisados desenvolvem referências medíocres, acreditando que atingiram píncaros de qualidade porque seguiram à risca instruções abalizadas de autoridades credenciadas.

Numa sala dessas, as altas frequências sequer são percebidas. Porque mal deixam os falantes e já são eliminadas de pronto pelos “aparatos acústicos recomendados”. No outro extremo estão as baixas frequências. Que ficam ribombando nas superfícies da sala por um tempão. No meio termo estão as médias frequências, que soam por um período intermediário entre os tempos de reverberação dos graves e os dos agudos. Dá para imaginar como é o som numa sala dessas? Amigos, é algo aflitivo. Nada a ver com qualquer noção de realidade.

Infelizmente, esse som hostil também resulta de outros três entraves acústicos. O primeiro deles é que as construções atuais se valem de paredes que classifico como “sonicamente transparentes”. O segundo é o tamanho miniaturizado dos cômodos. O terceiro é o formato “caixa de sapatos” das salas.

Paredes sonicamente transparentes permitem que ruídos externos penetrem com facilidade nas salas, prejudicando as audições. Reduzindo a subnitrato de pó de traque a gama dinâmica dos programas. Remédio: incrementar o isolamento acústico. Uma dica que sempre surte bons resultados: hermetizar melhor portas e janelas, pois esses itens isolam menos do que as paredes. Num patamar acima disso está o tratamento mais sério e, sem dúvida, que exige algum investimento. De preferência uma consultoria técnica experiente também.

Sobre o tamanho das salas, um dos principais basilares da acústica é: quanto menor o local, pior a acústica. E essa questão é 100% física, e não um daqueles indefectíveis tópicos subjetivos, passíveis de polêmicas intermináveis. A manifestação de tal inconveniente ocorre nas baixas frequências. Elas ficam consideravelmente fora de controle, por razões de comprimento de onda.

O formato caixa de sapatos produz três pares de superfícies paralelas: as duas paredes maiores, as duas menores e piso e teto. O resultado chama-se ‘ondas estacionárias’, nome dado a um fenômeno que combina o reforço de algumas baixas frequências com a forte atenuação de outras. Por vezes chegando ao extremo do cancelamento.

Com relação ao tamanho físico da sala, nada ou muito pouco a fazer. O excesso de reverberação, que não deve ser combatido com cortinas, tapetes e estofados, pode ser controlado com painéis absorsores especializados. As ondas estacionárias podem ser controladas com painéis difusores.

Estudos científicos de profundidade foram conduzidos por cientistas durante anos a fio para estabelecer os padrões de exigência das pessoas acostumadas a ouvir música e ir ao cinema. Os resultados nos permitem propor critérios modernos e precisos de onde instalar esses painéis visando atender aquelas exigências.

A primeira constatação, praticamente consensual entre as pessoas que colaboraram com as pesquisas, é que as reflexões frontais de baixas frequências são abominadas. Segue que as paredes atrás das caixas acústicas dos canais L, C e R devem ser revestidas com painéis absorsores de baixas frequências. Isso elimina de cara cortinas e tapeçarias, além de painéis construídos com fibra de vidro, lã de rocha e espumas tipo Sonex. Afinal, nada disso é solução para absorver as baixas frequências.

Outra constatação consensual é que as reflexões que chegam pelo chão e pelo teto são tão abomináveis quanto as frontais. Basta localizar os pontos nevrálgicos onde ocorrem as reflexões, que podem ser cirurgicamente determinados se você, de sua poltrona, mirar as caixas acústicas, uma por vez, através de um espelho localizado no chão e no teto.

Isto feito, uma das alternativas é aplicar painéis especializados no entorno desses pontos nevrálgicos. Como isso dificilmente pode ser feito no piso, recomendo o uso de um carpete especial para ao menos amenizar o problema. O carpete não precisa nem deve ser aplicado sobre todo o piso da sala. Apenas o suficiente para atenuar as reflexões frontais que chegam por baixo, com certa margem.

A parte frontal está resolvida. O prêmio são enormes benefícios para a estereofonia gerada pelos canais L e R, e aperfeiçoamento significativo dos sinais provenientes do canal C.

Muitas salas de home theater são montadas a partir de um móvel frontal. Nesses casos, os painéis especializados podem ser customizados para que suas faces externas coincidam com o fundo do móvel. Nenhuma dificuldade.

Painéis difusores ajudam a compensar os efeitos das ondas estacionárias. Alguns deles também absorvem parcelas consideráveis de energia.

Outro engano muito comum é imaginar que as reflexões laterais devem ser eliminadas ou combatidas. Aquelas pesquisas a que me referi antes deixam claro que todos nós apreciamos muito as reflexões laterais. Especialmente as que nos chegam com ângulos de 60⁰ e com intensidade ligeiramente abaixo das dos sinais diretos.

O que fazer? Nada. Deixar que as paredes da sala produzam as reflexões desejadas. Entretanto, se isso não acontece em seu caso, também é possível usar elementos reflexivos. Como biombos de madeira com espessura mínima 50 milímetros. Se preciso, os biombos podem ser montados sobre rodízios para facilitar a mobilidade.

Onde colocar os biombos? No alinhamento dos pontos nevrálgicos das reflexões, que podem ser determinados com a técnica do espelho. Digamos, um mínimo de meio metro para cada lado do ponto nevrálgico e um máximo de um metro para cada lado. A altura pode ser pouco menor que a da sala.

As reflexões laterais aumentam a largura aparente do palco sônico, potencializando muito a qualidade da imagem estereofônica. As reflexões que chegam da parede do fundo precisam ser controladas. Como? Aplicando-se painéis difusores por toda a parede. Os cálculos matemáticos envolvidos são muito pesados e indispensáveis. Ou se joga dinheiro bom fora.

Ainda temos que pensar nas duas paredes laterais. O melhor a fazer é aplicar mais painéis difusores. Isso ajuda a compensar os males trazidos pelas ondas estacionárias, especialmente os efeitos perversos de uma distribuição de energia pela sala sem compromissos com a homogeneidade. Se você acha que há muitos difusores em relação aos absorsores, informo que os painéis difusores também absorvem parcelas consideráveis de energia.

Ainda assim, é possível que a sala necessite mais absorção. Nesse caso, o tapete do piso pode ser aumentado em área. Se apenas isso não resolver, ainda resta uma boa parte do teto que pode receber painéis absorsores. Claro, todos especializados. De preferência, com superfícies inclinadas, de sorte a quebrar o paralelismo cima-baixo.

Sobre os subwoofers, é provável que o vendedor da loja tenha dito que ele pode ficar em qualquer lugar. Não acredite. O melhor é adquirir dois subs e começar a pensar em sua montagem deixando ambos simétricos em relação ao eixo medial da sala. Serão no mínimo muitas horas para encontrar o melhor ajuste. Ainda assim podem sobrar graves na sala. Não vamos confundir extensão das baixas frequências com mais energia do que é preciso ter para reproduzir efeitos com qualidade de cinema.

E se sobrar graves? Lembre-se do que disse antes sobre não ter o que fazer em função dos comprimentos de onda. Entretanto, uma certa dose – bem modesta – de remédio pode ser ministrada com o uso dos famosos bass traps. Que preferencialmente são instalados nos cantos verticais das salas e eventualmente nos cantos horizontais.

Observe que essa maneira de tratar acusticamente o Home Theater contrasta com a ideia muito difundida de que o melhor é distribuir aleatoriamente os elementos acústicos pela sala. Por que? Porque levamos em conta as exigências das pessoas e criamos padrões reflectométricos customizados, e nada fortuito ou incerto.

*Original publicado em novembro de 2015. Veja aqui. O autor é engenheiro e professor, tendo publicado recentemente “A Nova Bíblia do Som”, ebook que pode ser encomendado neste link.

 

 

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