Fones de ouvido e as gravações binaurais

Por Alexandre Algranti*

O sistema auditivo dos seres mais evoluídos é classificado como “binaural” pois envolve dois ouvidos. Esta característica permite a localização da origem dos sons no espaço pelo cérebro, ao analisar ínfimas diferenças entre os tempos de chegada dos sons nos dois ouvidos.

Graças a ela sobrevivemos ao processo evolutivo sem virar jantar de predadores carnívoros, e hoje podemos curtir um filme com som surround comendo um belo hamburger nas salas de cinema VIP…

A audição binaural envolve diversos fatores físicos, tais como as geometrias da cabeça, orelhas, canal auditivo e do torso, além de fatores neurológicos relacionados à transdução dos sinais acústicos, que atingem os tímpanos em sinais elétricos posteriormente processados pelo cérebro.

Na eletroacústica, esse fenômeno de localização é descrito pela HRTF (Head Related Transfer Function, “Função Transferência Relacionada à Cabeça”). Sua implementação física permite, entre outras coisas, a ilusão da reprodução multicanal e multidirecional com um fone de ouvido convencional de boa qualidade. Além de dar origem ao moderno campo do som imersivo.

Experimente os dois vídeos abaixo e curta um pouco desta tecnologia:

CLARA, FRITZ, LARS, HARRY E CIA.

Seguindo nossa hagiografia, Les Paul (1915-2009) é o Santo Padroeiro das modernas técnicas de gravação. Ele inventou o conceito de multitracking, no final dos anos 50. Este processo permite gravar várias fontes sonoras ao mesmo tempo, sendo cada uma registrada em um canal independente e posteriormente mixadas em um, dois ou mais canais.

É na mixagem que se define o panorama, ou onde cada fonte sonora estará posicionada com sua relativa intensidade no plano horizontal, ou, com o advento de tecnologias como o Dolby Atmos, em uma esfera ao redor do ouvinte.

Uma forma mais orgânica de se gravar sons mantendo suas orientações espaciais originais está na gravação binaural. Esta técnica utiliza arranjos de pares de microfones cujas cápsulas são orientadas de maneira análoga aos tímpanos, com algum objeto interposto entre os mesmos fazendo o papel do sombreamento da cabeça humana.

Escutar uma gravação binaural com fones de ouvido recria a ilusão de estar no ambiente onde tais arranjos foram instalados, sendo muito usuais em gravações de música clássica. Nesta ilusão, os sons parecem se originar de fora da cabeça, ao contrário do que ocorre com as gravações mixadas em estéreo convencional, que parecem emanar de dentro da cabeça. É simplesmente sensacional!

Dentre os arranjos de microfones, podemos destacar Clara, Fritz, Harry e Lars. Clara consiste em uma placa de acrílico cuja geometria recria a interferência da cabeça humana no processo auditivo. Se não me engano, foi desenvolvida na Universidade de Aachen, na Alemanha, um dos últimos bastiões da pesquisa e desenvolvimento da eletroacústica.

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Já Fritz e Harry, apelidos respectivos dos microfones Neumann KU100 e do AKG D-99C, são dois dummy heads, cabeças de manequim cujas dimensões são esculpidas a partir de milhares de medições de cabeças humanas e que possuem microfones dentro dos dois canais auditivos contidos nas respectivas orelhas. Ambos são uma solução prática e muito original para gravações em campo.

Lars, por sua vez, apelido do sistema HATS Type 4100, é um simulador de cabeça e torso utilizado em pesquisas de psicoacústica, fabricado pela Brüel & Kjaer. Outro arranjo que vem ganhando destaque é o de tiaras usadas ao redor da cabeça, que sustentam microfones em miniatura inseridos no próprio ouvido pelo técnico de som, tais como alguns protótipos desenvolvidos por Paulo Ferreira, experiente e talentoso sound designer de esportes e de dramaturgia baseado no Rio de Janeiro.

Por último, microfones montados nas extremidades de fones intra auriculares são uma solução interessante para consumidores finais registrarem seus vídeos com mais realismo sonoro. A Sennheiser recentemente anunciou o seu Smart Headset como parte da sua plataforma de som imersivo Ambeo, que esta coluna gostaria muito de testar.

No próximo post, traremos uma conversa com David Chesky, um dos grandes nomes da gravação audiófila e binaural, falando sobre seus trabalhos com Lars.

Enquanto isso, coloque os seus fones de ouvido e vamos jogar um basquete (clique aqui**).

Boas audições!

*Alexandre Algranti continua na busca do fone de ouvido perfeito. Porém, espera nunca encontrá-lo…

**Por Dr. Chesky & Mor Mezrich. Copyright 2017 Chesky Records

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