Bento Araújo, um arqueólogo musical

Por Alexandre Algranti*

Bento Araújo é jornalista, escritor e podcaster, e irá lançar este mês o volume 2 do livro “Lindo Sonho Delirante”, desta vez focado nos “100 discos audaciosos do Brasil (1976-1985)”. Seu conhecimento musical arqueológico é semanalmente compartilhado no podcast Poeirazine, atualmente na sua 391ª edição e provavelmente um recorde mundial. Conversamos com ele sobre fones de ouvido e música obviamente.

Alexandre Algranti – Vou começar com um proposta indecente… Temos como digitalizar os discos tratados no “Lindo Sonho Delirante Vol.1”? Para consumo interno. Eu descolo um toca-discos profissional, cápsula, agulha, interface 24/192 e até um gravador digital DSD. E digitalizamos com uma qualidade absurda!

Bento Araújo – Uma pena, mas eu não tenho todos os discos não… São tão raros que a maioria está na mão de colecionadores do Japão, Inglaterra, Alemanha. Alguns eu nunca vi, e olha que trabalhei em lojas de discos desde os anos 90.

AA – Quais os cuidados que você toma com a sua saúde auditiva?

BA – Sou músico amador e toco em banda desde minha adolescência. E não tomava cuidado nenhum… Comecei a perceber aquele apito no ouvido, e isso começou a me incomodar. Por causa do meu trabalho eu vou muito a shows. Depois de uma certa época, comecei a perceber que estava perdendo um pouco da audição. Fiz uma audiometria e aí mandei fazer um protetor a partir de um molde do meu canal auditivo, que é o meu companheiro inseparável. Tenho amigos que tiram sarro, mas vamos ver quem vai ter a audição melhor daqui a alguns anos… (risos)

AA – Qual a importância do fone de ouvido no seu trabalho?

BA – Muito grande, porque eu trabalho com música. E agora que tenho uma filha de um ano de idade, não posso mais escutar alto como eu fazia com as caixas acústicas. Estou usando bastante agora, mas sempre usei, sempre gostei.

AA – Você curte gravações binaurais? Alguma gravação em especial?

BA – Gosto muito, acho bem interessante. Posso citar dois discos: “Flow Motion”, da banda alemã CAN, um disco que eu gosto muito. A banda King Crimson na formação dos anos 1980 foi criticada por soar como Talking Heads, mas o CAN já soava como o Talking Heads na década de 1970 (risos)… E o “Street Hassle”, do Lou Reed.

AA – Você escuta áudio digital comprimido?

BA – Escuto sim, não que eu goste. Por questões de praticidade e até de trabalho, acabo ouvindo muito Spotify e ouvindo muita coisa na internet.

AA – Você tem um canal no Spotify?

BA – Tem o canal do Poeirazine e tem a playlist do primeiro volume do livro. O que tem no Spotify eu acabei colocando muita coisa, tenho aquele selo de veracidade.

AA – Vinil ou CD, eis a questão…

BA – Eu gosto dos dois formatos e até hoje compro estes formatos. Gosto mais do vinil, o lance até afetivo, eu sou colecionador, compro discos desde que tinha sete anos de idade. Meu primeiro disco comprei em 1984, “Love at First Sting”, dos Scorpions. Estavam vindo pro Rock in Rio, eu era criança e isto me fascinou.

AA – E quantos mil vinis na sua coleção?

BA – Não tenho muitos, parei de contar faz muito tempo. Algo em torno de 2.000 LPs e 1.000 CDs…

AA – Alguma dica para quem quer começar a colecionar vinis?

BA – Sair dos discos hype, aqueles discos de sempre, os clássicos, que custam uma fortuna. Os discos clássicos são os discos clássicos, mas tem muita coisa que não foi redescoberta. Tem muitos discos que são jogados nos sebos, a preços muito baratos, que ainda podem vir a ser cultuados. Não entra nessa de pagar uma fortuna, mas vai fazendo a sua própria coleção, vai garimpando, isto que é gostoso, isto que é legal. A pesquisa e o garimpo têm que ser mais prazerosos.

AA – E os cinco discos para levar quando você for viajar para Marte?

BA – Difícil hein, cara…”Pawn Hearts”, do Van der Graaf Generator; “Odyssey and Oracle”, dos Zombies, um clássico da psicodelia; “Artaud”, do Pescado Rabioso, uma obra-prima; o segundo disco do Som Nosso de Cada Dia, com um som mais funk e mais balançado; e finalmente “In The Court of the Crimson King”, do King Crimson.

AA – Aproveito para agradecer aquele monte de posers metidos a rockers que vaiaram o Robert Fripp quando ele abriu o show do G3 em São Paulo. Ainda bem que Buenos Aires fica perto e dá para ver os shows do King Crimson quando eles vêm… Que vergonha!

BA – É verdade, nossa, esse dia foi lamentável… Eu estava lá também e me senti mal.

AA – O que te levou a escrever livros sobre a história recente da música brasileira?

BA – Essa coisa com música psicodélica brasileira já vem comigo desde o final da década de 1990. Descobri os discos psicodélicos do Ronnie Von e foi quando Os Mutantes lançaram o “Technicolor”. Na loja em que eu trabalhava, senti que começamos a dar valor ao rock brasileiro dos anos 1960 e 1970, que antes não dávamos. Vinham colecionadores americanos, japoneses, alemães e ingleses que compravam esses discos a preço de banana e a gente achava que aquilo era um subproduto. Eram cópias do rock inglês, rock americano. Desde então falei que um dia eu lançaria um livro falando destes discos, tentando resgatar e garimpar tudo isso aí.

AA – Quando será lançado o volume dois?

BA – O livro será lançado em São Paulo no próximo dia 17 de Novembro, na escola de música IMKS, no Jardim Paulistano.

AA – Para onde está indo o Rock and Roll? Grandes dinossauros ainda fazem sucesso, não está na hora de uma banda nova vir e detonar?

BA – O rock underground está mais forte que nunca, nele sempre vai existir o Rock and Roll e todos os seus subgêneros. O rock é meio assim uma coisa maldita, é contracultura mesmo. Eu fico até confortado com isto. E hoje em dia com internet e as demais ferramentas, isto possibilita que as bandas façam suas turnês independentes. Eu tenho uma visão otimista. Não é um período ruim para o rock não.

AA – Como anda o Rock and Roll nacional?

BA – Ná época da revista impressa Poeirazine, eu recebia muito material, principalmente bandas do Nordeste. Tem bastante coisa legal rolando. Tem uma cena legal acontecendo atualmente. Tem o Anjo Gabriel, banda psicodélica de Pernambuco que eu gosto muito, o Caravela Escarlate, do Rio de Janeiro, com um som progressivo, e o Protofonia, de Brasília. Esta galera gosta do vintage, gravações analógicas, alguns gravam até em rolo.

AA – Como surgiu o podcast?

BA – Estamos na décima temporada, próximo aos 400 programas. No site do Poeirazine e no iTunes agora. Tem bastante história…

AA – Qual o playlist que está rolando no seu dispositivo móvel?

BA – Por ter acabado de finalizar o livro, eu estava escutando os discos que estão no livro. São discos na sua maioria independentes e experimentais. “Memória das Águas” do Fernando Falcão; “Metal Madeira” do Marco Bosco; e o do Chico Melo e Helinho Brandão, estão todos no livro.

AA – Bento, obrigado pela entrevista e nos vemos no lançamento do livro.

*Alexandre Algranti é o Chief Headphone Officer do site fonesdeouvido.com.br. Leitores deste blog tem 10% de desconto em qualquer compra no site com o código HT2018.

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