Confira os destaques da última edição da Revista Home Theater que está nas bancas.
Emissoras preparam mudanças para alta definição
21/11/2007, por Orlando Barrozo
No próximo dia 2 de dezembro, a televisão brasileira entra num novo ciclo. Assim como aconteceu em todos os países que já adotaram a TV Digital, as emissoras brasileiras - a princípio somente as que operam na cidade de São Paulo - começam nessa data um processo de transformação que irá afetar todos os segmentos ligados ao negócio da televisão - incluindo, é claro, o telespectador, que passa a ter um novo relacionamento com seu veículo de lazer preferido.
Levantamento feito pelo grupo G1, portal de notícias da Rede Globo, mostra como as principais emissoras estão se preparando para a mudança. O governo estipulou o dia 2 de dezembro para o início oficial das transmissões digitais. A partir daí, começa o processo de transição, do atual padrão analógico (o velho PAL-M, inaugurado em 1972) para o padrão digital. Esse processo deve levar vários anos; na teoria, o "dia D" acontecerá no ano de 2016, quando todas as emissoras precisarão encerrar as transmissões analógicas e só poderão gerar sinal digital.
Essa data é teórica porque ninguém (nem o governo) sabe como se comportará o mercado nos próximos anos. A decisão de estabelecer um prazo para a transição tenta seguir o exemplo dos EUA. Lá, a transição começou em 2002 e a FCC (equivalente americana da Anatel) fixou a data de 18 de fevereiro de 2009 como o "final switch", ou seja, a data em que todas as emissoras terão que encerrar as transmissões analógicas.
Como no Brasil essas coisas sempre estão sujeitas a interferências políticas e interesses nem sempre confessáveis, não há certeza de que a transição se encerrará mesmo em 2016 (é bom lembrar que a maioria das emissoras brasileiras são de propriedade de políticos com cadeira no Congresso Nacional).
A verdade é que, das grandes redes, somente a Globo é que demonstra condições de operar a TV Digital desde seu início, neste dezembro, e oferecer boa parte de sua programação em alta definição. Segundo o levantamento do G1, a emissora - que já vem exibindo alguns programas em HDTV, incluindo a atual novela das 8, "Duas Caras" - passará a incluir eventos esportivos nessa grade; infelizmente, dia 2 de dezembro é também a data em que se encerra o Campeonato Brasileiro de Futebol de 2007, ou seja, jogos importantes, mesmo, só teremos a partir de 2008.
O chamado ISDTV (nome oficial do padrão brasileiro de TV Digital, derivado do japonês ISDB) prevê que as transmissões serão na faixa de UHF, que utiliza os canais 14 a 69, para não se sobrepor à atual VHF (canais 2 a 13) do padrão analógico. Assim, cada emissora ganhou um canal UHF, formando em São Paulo o seguinte espectro:
Emissora
Canal
Globo
18
Record
20
Bandeirantes
23
Cultura
24
SBT
28
Rede TV!
29
Para o telespectador, pouco vai mudar. Ele terá de instalar um conversor digital/analógico para captar o sinal de qualquer emissora; esse conversor será ligado entre a antena UHF (sim, você terá que reviver esse antigo acessório e colocá-lo no telhado de sua casa ou na sacada de seu apartamento) e o televisor, que não precisa ser digital. Mesmo quem possui um TV de tubo antigo terá condições de receber o sinal, com esse tipo de instalação.
A sintonia dos canais continuará sendo feita pelo televisor. A diferença é que o conversor irá receber, por exemplo, o sinal da Globo pelo canal 18 e convertê-lo para o canal 5, que é onde a emissora opera na capital paulista (no Rio de Janeiro, continuará sendo pelo canal 4). O 18, portanto, será o que os técnicos estão chamando de "canal virtual" da Globo, assim como os demais números valerão para as outras emissoras.
Evidentemente, quem tem um TV de baixa resolução - como é a maioria dos modelos de tubo CRT - não conseguirá assistir nenhum programa em alta definição. Esta, como se sabe, exige modelos com resolução mínima de 720 linhas progressivas (da já famosa sigla 720p). O sinal das emissoras poderá chegar até 1080 linhas entrelaçadas (1080i). Em tempo: os TVs chamados Full-HD, com resolução 1080p, usarão essa capacidade somente ao serem ligados a players Blu-ray ou HD-DVD, por enquanto a única fonte de sinal 1080p disponível. Mas nem todas as emissoras irão transmitir em alta definição. A TV Cultura, por exemplo, já anunciou que sua prioridade será utilizar o canal digital para multiprogramação. E o que isso significa? Pelas características físicas do espectro, um canal digital opera compactando os sinais através do sistema MPEG4. Dessa forma, é possível transmitir até seis vezes mais conteúdo do que na transmissão analógica. Em outras palavras, com a compactação a emissora pode gerar, se quiser, até seis sinais diferentes (digitais) utilizando a mesma banda de freqüências antes usada para o sinal analógico.
Isso permitirá que uma emissora gere programas diferentes pelo mesmo canal. Como? O telespectador poderá sintonizar, pelo controle remoto de seu conversor, digamos, o canal 2.1 (onde a Culturá estará transmitindo um documentário), ou o canal 2.2 (para ver um telejornal) e assim por diante. Quando fizer essa opção, a emissorá não terá condições de transmitir em alta definição, porque este tipo de sinal exige maior largura de banda. Ou seja, cada emissorá terá que optar entre alta definição e multiprogramação. Pelo que se sabe até agora, somente a Cultura já fez a sua opção.
Ainda segundo o levantamento o G1, a Rede TV irá exibir em alta definição o seriado "Donas de Casa Desesperadas", enquanto a Band é a emissora mais ambiciosa de todas: promete exibir toda a programação das 18hs à 1h da manhã em HD. Genericamente, a emissora também anuncia que, a partir do dia 2, transmitirá novelas, jornalismo e esportes em alta definição. Vamos ter de conferir isso na prática. Uma iniciativa original deve partir da TV Gazeta, que em São Paulo opera no canal 11. A emissora anunciou que utilizará o horário nobre para transmitir um programa de televendas em que o telespectador poderá comprar produtos utilizando a tecla de interatividade do controle remoto, como num site de vendas. Outra coisa a se conferir.
Tecnicamente, sabe-se que a Globo é, de todas, a mais preparada para a mudança (prova disso é que já está transmitindo regularmente em alta definição há cerca de dois meses). A equipeda revista HOME THEATER realizou testes nas últimas semanas, utilizando um conversor cedido pela Philips, e constatou que o sinal da Globo é o único estável até o momento (logicamente, isso pode mudar a partir do dia 2).
Ainda citando a pesquisa realizada pelo G1, a emissora adquiriu novos equipamentos específicos para produzir e transmitir programas em HD, o que inclui câmeras, switchers, spots de luz etc. As demais emissoras também afirmam ter investido em soluções técnicas para se adaptar não apenas à nova qualidade de sinal exigida, como ao novo formato de tela (as transmissões digitais serão em widescreen, também chamado 16x9).
A partir do dia 2, o telespectador paulista - e nos meses seguintes também os de outras praças - começará a perceber a diferença. Com o sinal de alta definição, fica mais fácil notar detalhes como a maquiagem da atriz da novela, ou a posição do bandeirinha na hora do impedimento. Enfim, será uma nova televisão em nossa casa.