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Um passeio pelo templo dos Beatles
25/08/2008, por Orlando Barrozo
Não é qualquer um que entra em Abbey Road. Mesmo para artistas
famosos, esse verdadeiro templo da música mundial só abre suas portas em
ocasiões especiais. O público? Nem pensar. Abbey Road faz questão de manter sua
aura, conquistada desde a década de 30 do século passado e realimentada ao longo
dos últimos 50 ou 60 anos. E, claro, consagrada pelos Beatles, que nos
anos 60 elegeram Abbey Road como o "seu" estúdio de gravação.
Pois tivemos o privilégio de entrar no "templo", na manhã da última 6a.
feira, graças a um convite muito especial da B&W, fabricante inglês de
caixas acústicas que há décadas fornece seus equipamentos para o estúdio. Sem
dúvida, é um ótimo marketing: boa parte dos artistas que por ali passaram - só
dois exemplos: Paul McCartney e Bono Vox - escolheram caixas B&W para usarem
em suas próprias casas. Melhor recomendação, impossível.
A história de Abbey
Road se confunde com a dos Beatles. Criativos, inquietos e extremamente
perfeccionistas, desde o início da carreira os quatro músicos e seu produtor,
George Martin, queriam utilizar a melhor tecnologia de áudio disponível.
Encontraram nesse estúdio, que anos antes havia sido adquirido pela gravadora
EMI, distribuidora dos discos do quarteto. Mesas de efeitos, microfones de
altíssima sensibilidade, gravadores com recursos inovadores e, claro, excelentes
caixas acústicas ajudaram os Beatles a produzir todas as suas obras-primas.
Mas não apenas eles. Em seus 77 anos de existência, Abbey Road já atendeu
desde músicos de jazz, como Miles Davis e Ella Fitzgerald, a orquestras
sinfônicas, como as de Londres e de Berlim, com seus exigentes maestros (entre
eles, Leopold Stokowsky, Herbert Von Karajan e Colin Davis). Foi usado também
por brasileiros, como Milton Nascimento, que nos anos 80 remixou em Abbey Road
todos os seus célebres discos da década anterior.
Com uma história tão rica, não é de estranhar que os estúdios da EMI
continuem até hoje atraindo músicos de renome. A diferença é que boa parte deles
hoje possui seus próprios estúdios e só utilizam Abbey Road em ocasiões
especiais. "Acho que não há outro estúdio como este", diz Jim Taylor,
responsável pela manutenção dos equipamentos e que nos recebeu na 6a. feira.
"Houve o cuidado de construir uma sala com as dimensões adequadas para receber
uma orquestra inteira, pé direito altíssimo, tratamento acústico refinado e os
melhores equipamentos. Abbey Road sempre trabalhou com o que há de melhor, por
isso os grandes músicam nos procuram".
Além de oferecer o máximo em recursos técnicos, os responsáveis pelo
estúdio têm a preocupação de preservar ao máximo essa história. Boa parte dos
equipamentos usados em gravações célebres - como "Tristão e Isolda", a ópera de
Richard Wagner na versão estrelada por Placido Domingo; "Dark Side of the Moon",
do Pink Floyd; e a trilha musical da trilogia "Senhor dos Anéis", do compositor
americano Howard Shore - está guardada em salas do sobrado conhecido como Abbey
Road. Uma curiosidade: até 1970, o local chamava-se apenas EMI Studios; foi o
sucesso dos Beatles, que naquele ano se separaram, que levou a gravadora a
adotar oficialmente o nome da rua onde se localiza.
Ciceroneados por Jim Taylor, pudemos percorrer salas e corredores da casa e
comprovar que alguns aparelhos, com jeito de muito antigos, estão encostados nos
cantos. Jim nos conta que já surgiu a idéia de montar um museu com essas
preciosidades, mas o excesso de trabalho até agora impediu levar esse projeto à
frente. Lá estão, por exemplo, o órgão Hammond que Paul McCartney usou nas
gravações do álbum branco (1968), de Let It Be e Abbey Road (o disco).
Encontramos também gravadores de rolo, com fita magnética de 1/2 polegada, que
na época eram o suprassumo da tecnologia em áudio; microfones analógicos
fabricados nos anos 50, que serviram a centenas de músicos, continuam sendo
usados - Jim diz que ainda não surgiu nada melhor.
Segundo ele, Abbey Road conserva ainda mais de 1 milhão de horas de
gravações, em fitas master, sendo que a maior parte delas jamais foi lançada
comercialmente. É fácil de entender: para cada faixa de um disco, os músicos
costumavam gravar 10, 15 ou 20 takes, um hábito decorrente do perfeccionismo,
hoje bem menos comum. Quando os Beatles decidiram, por exemplo, lançar o projeto
especial "Anthology", que resultou em cinco DVDs, foi lá que o produtor George
Martin foi garimpar o material não utilizado nos discos oficiais. Dá para
imaginar o que teríamos se outros artistas com igual talento decidissem fazer o
mesmo.
Outro trabalho admirável em Abbey Road é a restauração de gravações antigas.
Andrew Walter é o engenheiro responsável por esse departamento, e confessa que
trabalho não tem lhe faltado. Toda vez que alguém quer reeditar uma gravação dos
velhos tempos, é ele quem tem de "limpá-la" para permitir o lançamento.
Orgulhoso, Walter nos mostrou trechos de gravações feitas nos anos 30, repletas
de chiados, e depois a versão "limpa". Só ouvindo para crer.